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Santa Casa em Foco – Assistência espiritual como prática terapêutica

A internação hospitalar é a medida extrema que se apresenta quando organismo humano sucumbe à enfermidade. Mesmo que seja o caminho adotado para recuperação da condição física, ocupar um espaço marcado pela impessoalidade gera medo, ansiedade e incertezas. Com objetivo de ampliar o acolhimento ao paciente, a Santa casa de misericórdia de Goiânia decidiu incluir nos prontuários, com a anuência dos hospitalizados, a assistência espiritual como prática integral e complementar ao tratamento médico.

O projeto foi idealizado pelo psicólogo Roberto Ribeiro de Moura, coordenador dos setores de Psicologia e de Voluntariado da unidade de saúde, maior hospital de atendimento à rede do Sistema Único de Saúde (SUS) na região Centro-Oeste, que realizou em 2020 mais de 12.000 internações. “O conceito de saúde mudou muito de alguns anos para cá. Antes, saúde era ausência de doença. Hoje, não basta estar livre da doença, é preciso estar bem com o seu processo social, ter um bom equilíbrio emocional e fé em algo que acredita”, afirma o psicólogo. Há pouco mais de um mês, o setor de Capelania Hospitalar, coordenado pela capelã Eliana Maria Gomes de Oliveira, colocou a ideia em prática.

Embora a Santa Csa seja uma instituição filantrópica vinculada à Igreja Católica, essa orientação religiosa não norteia a proposta. A partir da solicitação da equipe de saúde ou da busca ativa da capelã, o paciente é submetido a uma anamnese – entrevista para ajudar no diagnóstico – na qual ele manifesta se tem alguma crença e se deseja receber assistência espiritual. De acordo com Roberto Ribeiro, em 95% das abordagens, a resposta é positiva. A demanda vai para o prontuário e a partir daí a própria capelã ou um líder religioso da fé professada pelo paciente começa a ampará-lo como prática complementar o tratamento. “Nós formalizamos que a religiosidade faz parte de uma visão integral no caso do paciente”, detalha o psicólogo.

Roberto Ribeiro explica que a anamnese para o projeto foi elaborada a partir de um estudo científico a que teve acesso em que pacientes com doenças crônicas disseram que gostariam de receber atendimento espiritual durante o tratamento. No mesmo estudo, grande parte dos profissionais de saúde disse que não fazem isso por não ser o seu papel, mas 60% afirmaram que, por não ter afinidade com o tema, não sabem como fazer. “Foi o que me motivou a desenvolver esse instrumento. Se temos uma evolução espiritual, enriquece muito a discussão do caso. O profissional de saúde passa entender o quanto a parte espiritual é importante no acolhimento.”

Na sexta-feira (26), a internação do pedreiro Waldemar do Santos Pereira, de 66 anos, na Santa Casa de Misericórdia de Goiânia completou 10 dias. Ele foi colocado num leito de enfermaria ao lado de outros cinco pacientes. Ali recebeu a visita da capelã Eliana Maria e se surpreendeu. “Foi a primeira vez que recebi esse tipo de apoio em um hospital e já estive internado outras vezes. Fiquei satisfeito por ter alguém para conversar. Isso ajuda no tratamento”, relatou ele ao POPULAR.

O pedreiro, morador do Jardim Bonanza, na capital, é católico e frequenta igreja de sua comunidade, mas preferiu o apoio espiritual da capelã. Ele foi hospitalizado em razão de um derrame pleural e diz que em momento algum teve medo de morrer porque “a hora de todos vai chegar”. Por outro lado, não se sente confortável dentro do hospital. “É um lugar que ninguém quer ficar, por isso procuro fazer a minha parte. Estou só aguardando a hora de ir para casa”. Para Waldemar, a prescrição da ajuda espiritual, tanto para ele quanto para os colegas de enfermaria, faz toda a diferença. “Eu fiquei em paz”.

Acolhimento dos pacientes sem pré-julgamento

Há quase três anos e meio à frente da Santa Casa de Misericórdia, a pediatra Irani Ribeiro de Moura explica que a humanização da assistência é um dos eixos estruturantes de sua gestão. “As pessoas podem ser atendidas em um local simples, mas se o atendimento for humanizado, saem agradecendo”. Ela enfatiza que a proposta recém-implantada está dentro do que preconiza o Ministério da Saúde com as Práticas Integrativas e Complementares (PICS), recursos terapêuticos que buscam a prevenção de doenças e a recuperação da saúde com ênfase na escuta acolhedora. “O hospital sempre teve a capelania e há alguns anos o corpo de voluntários, mas não como um trabalho integrado”.

É comum a equipe hospitalar se deparar com pacientes que acreditam ter sido acometido por alguma doença por uma predestinação ou como “um castigo de Deus”. “Nosso país é muito religioso e percebo que essa cultura tanto pode ajudar quanto atrapalhar no processo de enfrentamento da doença”, afirma o psicólogo Roberto Ribeiro. A orientação é para que o acolhimento seja feito sem pré-julgamentos. “Atuamos para que a pessoa faça reflexões sobre sua vida e, se ela estiver aberta, a experiência hospitalar pode transformá-la”.

A expectativa da superintendente irani Ribeiro é que a integração entre a espiritualidade e o tratamento curativo contribua para a formação dos novos médicos. A Santa casa receber acadêmicos de medicina da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e também é um centro de residência médica. “Formar médicos não só capacitados, mas também sensíveis às causas humanas é nossa responsabilidade como hospital-escola. É muito triste, depois de trabalhar a vida inteira, a pessoa ficar doente sem condições financeiras e ser tratado como material qualquer, sem humanização”.

Ainda não houve tempo para mensurar o resultado da inclusão do amparo espiritual no tratamento dos pacientes da Santa Casa. Roberto Ribeiro lembra que com frequência os médicos apelam para o repertório religioso no momento de dar a notícia da finitude da vida uma família, como “foi morar com Deus” ou “está com Deus”. E questiona: porque não usar esse repertório também durante o tratamento? O psicólogo reforça que profissionais de saúde possuem uma cultura curativa. “Mas a medicina não é exata, é humana também. E em muitos momentos médicos entram em contato com a limitação no tratamento”.

A junção de ciência e fé não é um fenômeno novo. São inúmeros os estudos científicos que referendam os benefícios desse encontro. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a fé influencia na saúde física, mental e biológica e reduz os riscos de enfermidades. Estudo recente realizado pela Universidade Thomas Jefferson, da Pensilvânia (EUA), mostrou através de ressonância magnética e o poder da oração na cura física.

Reportagem publicada no jornal O Popular em 01/03/21

Texto: Malu Longo

Foto: Diomício Gomes

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